Detalhes¹ tão pequenos … São coisas muito grandes para esquecer…

Gestores do Sistema Embalagem se valem diariamente de diversos indicadores para monitorarem o desempenho. Muitos deles analisam com extremo cuidado o que chamam de “grandes números” normalmente voltados ao lado financeiro da organização. Outros estão atentos à produtividade, expressa em quantidade de produtos fabricados / homens.hora trabalhados, e por vezes se esquecem do olhar crítico sobre a quantidade produzida em relação à capacidade instalada (fábrica oculta) e do olhar criativo, edificador, focado nos homens.hora trabalhados.

Outros ainda olham para a OEE2 como se ela fosse uma divindade e se esquecem que é o produto das taxas de disponibilidade, velocidade e qualidade. Talvez precisassem focar essas taxas isoladamente para melhorar os resultados da empresa.

Digo tudo isso porque não se pode desprezar os “detalhes tão pequenos” que “são coisas muito grandes para esquecer”. A melhoria contínua (leia-se Kaizen) é feita de pequenas vitórias diárias que, ao final de um ano, por exemplo, podem representar um grande avanço em produtividade e competitividade.

Gerenciar o Sistema Embalagem é trabalho que requer melhoria contínua. É lançar o olhar atento ao todo e às partes (leia-se aos detalhes). Não se faz milagre. É preciso conhecer minuciosamente cada um dos seus componentes e “convidar” seus gestores ao processo de melhoria com a frase de Martin Luther King em seu famoso discurso: “I have a dream3!”

É preciso dedicar tempo diário para pensar, refletir, simular, ousar e checar se “a casa está em ordem”. A figura do Engenheiro Chefe do Sistema Embalagem semelhante ao da Toyota4 exerceria essa atividade e seria essencial para:

  • Coletar e analisar de forma crítica dados e informações de todos os componentes. O ponto de partida é aquele que mais rapidamente trará resultados e permitirá motivar os demais;
  • Ter paciência para fazer esse levantamento de forma contínua e talvez menos rápida do que se esperava;
  • Ter coragem para levantar informações que podem surpreender – muitos preferem viver na ilusão que no fim tudo vai dar certo.

O uso de sensores é essencial para tornar a coleta de dados mais robusta e menos sujeita a erros. Ajudaria muito o Engenheiro Chefe. Sensores não custam tão caro como a princípio se imagina e conectá-los a um ERP para consolidação das informações permite embasar e robustecer decisões.

Estabelecida a base para a gestão, o passo seguinte é digitalizar os documentos gerados, ou seja, dar a eles o formato digital, armazenando-os em plataformas para facilitar sua recuperação, compartilhamento e utilização. É muito mais do que lançar num software qualquer os dados de processo: TMBF – tempo médio de bom funcionamento, TMP – tempo médio de parada, TMEF – tempo médio entre falhas, velocidade de máquinas, tempo de parada, tempo para atendimento de paradas, rendimentos, perdas de produto e de embalagem por diversos motivos, desperdícios, e muitos outros. É analisá-los criticamente e desenhar cenários e tendências. Cabe aqui uma pergunta “orientativa”: o que fazer com esses números? Caso não se saiba a resposta, não descartar informação. Deve-se guardá-la com cuidado porque será útil na futura “recuperação” da história de uma máquina, por exemplo.

Quais dados coletar é uma questão relevante. Faz tempo que desenvolvi o que chamo “Diagnóstico do Sistema Embalagem” que consiste que permite “navegar” pelo sistema e olhar de forma atenta para os pontos chave de cada componente. Como consequência:

  • Permite especificar sensores adequados para esses pontos críticos;
  • Orienta o gestor a criar um plano estratégico (ou road map) porque identifica prioridades e os pontos onde se pode obter resultados mais rapidamente de modo a estimular outros setores;
  • Ajuda a conduzir um inventário de impactos ambientais causados por perdas, descartes e desperdícios.

Feito tudo isso, pode-se partir para a Transformação Digital propriamente dita, entendida como integrar todos os dados numa única plataforma. Haverá, portanto, “uma única verdade” na gestão. Os resultados? Maior eficiência, eficácia, produtividade e competitividade. Além disso, menos perdas, desperdícios, impactos ambientais.

Como começar? Relembro uma frase atribuída a São Francisco de Assis5: “Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível”.

Saiba mais:

  1. Detalhes. Canção de Roberto Carlos e Erasmo Carlos. Disponível em https://acesse.dev/SZbZe – último acesso em 30 de junho de 2024.
  2. OEE – Overall Equipment Effectiveness – Eficiência Global do Equipamento.
  3. I have a dream – Martin Luther King – Disponível em https://acesse.dev/dABuP – último acesso em 30 de junho de 2024.
  4. MORGAN, J.M. e LIKER, J.K – Sistema Toyota de desenvolvimento de produto: integrando pessoas, processos e tecnologia; tradução Raul Rubenich – Porto Alegre: Bookman, 2008. 392p.
  5. https://l1nq.com/u0Ee4 – último acesso em 2 de julho de 2024

Autor
Colunista Antonio Cabral

Coordenador dos Cursos de Pós-Graduação em Engenharia de Embalagem do Centro Universitário do Instituto Mauá de Tecnologia (CEU/IMT).