Atualmente é bastante comum escutar no mercado a expressão “não existe bala de prata” para solucionar os impactos ambientais causados pelas embalagens no planeta. Esta expressão surgiu na literatura e no cinema e a bala de prata foi utilizada no sentido literal para eliminar criaturas como o lobisomem e monstros, tornando esta tarefa desafiadora, mas possível de ser realizada. Em um contexto geral, a expressão “bala de prata” é uma metáfora que se refere a uma solução simples para resolver um problema complexo.

A humanidade passou por diversas transformações ao longo dos séculos, particularmente a revolução industrial foi impulsionadora para o desenvolvimento econômico do planeta, bem como o abastecimento da população mundial que não parou de crescer até os dias atuais. A partir do aperfeiçoamento dos processos produtivos, foi possível gerar excedentes que refletiu diretamente na mudança dos hábitos de consumo da população.

As indústrias precisavam eliminar seus estoques e continuar produzindo, surge assim a era de vendas e posteriormente a era do marketing, na década de 1950. Com esta nova configuração de mercado, surgiram as lojas de atendimento self-service, deixando em segundo plano o atendente que influenciava na venda e na sugestão de produtos. O consumidor passou a ser protagonista na decisão de compra e as empresas precisaram investir em comunicação no ponto de venda, ampliando as funções primárias da embalagem de contenção, proteção e transporte, agregando estratégias comunicacionais para superar a concorrência e atrair clientes.

Ao longo das últimas décadas foram surgindo novos materiais e processos de fabricação e o sistema de abastecimento se profissionalizou para atender a alta demanda de produtos alimentícios e bens de consumo. O efeito colateral desta mudança foi o esgotamento do planeta e a geração demasiada de resíduos sem o cuidado com a sua destinação final.

Hoje não é mais possível projetar produtos e embalagens sem colocar em pauta as questões relacionadas a sustentabilidade, virou um tema transversal. O grande desafio é fazer com que a embalagem cumpra todas as suas funções, atendendo a cadeia de stakeholders envolvidos e interligados, contemplando a interação da embalagem com o produto, seu usuário, a indústria convertedora e de envase, com foco em uma solução economicamente sustentável e que não agrida o meio ambiente. Questões ambientais devem ser tratadas com rigor científico, não temos mais espaço para atuarmos experimentalmente na tentativa e erro. Torna-se necessário integrar as áreas de conhecimento e buscar soluções mais assertivas. A área acadêmica desenvolve soluções profundas em pesquisa que devem ser aplicadas no mercado.

Atuamos em um sistema complexo com variáveis previsíveis e imprevisíveis, quanto mais dados e ferramentas que auxiliam na visualização sistêmica, maior a chance em desenvolver projetos de embalagens que reduzam impacto ambiental. A “bala de prata” para o desenvolvimento de embalagens sustentáveis é o conhecimento e o esforço coletivo para buscar soluções eficazes que atue durante todo o ciclo de vida da embalagem e do produto. Através deste olhar, é possível eliminar embalagens a partir de soluções de consumo inovadoras; mudanças culturais para eliminar hábitos de consumo inadequados e projetos que reduzam materiais, energia e a emissão de efluentes e que possam ser efetivos em seu fim de vida através do modelo de economia circular ou da reciclagem.

Autor
Colunista Ricardo Sastre

Publicitário, Mestre em Design, Doutor em Engenharia de Produção e Pós-Doutor em Design Sustentável, Pesquisador, Consultor e Professor. Presidente da AP Design e Diretor da Mudrá Design.