Uma carreira de 40 anos no setor de embalagem e muitos aprendizados
Quem milita há muitos anos no mundo da embalagem sabe. Uma vez ‘picado’, vai ficar no sangue. Conhecemos vários profissionais que se iniciaram profissionalmente em áreas da embalagem e construíram trajetórias inteiras. Paulo Pereira é, sem dúvida, um deles. Começou em 1982 na J&J, na área de desenvolvimento de produtos profissionais e atualmente é o diretor e fundador da consultoria Pack in Motion. Ele completa 40 anos de uma carreira bem-sucedida e nos conta um pouco de suas experiências e opiniões.

EMBANEWS: Qual a sua visão do setor de embalagens no Brasil atualmente?
PAULO PEREIRA: Considero que o setor de embalagem tem uma participação muito importante para o nosso país e tem avançado muito, com as empresas sempre em busca de inovação, sustentabilidade e novas tecnologias, tanto para materiais quanto para equipamentos. Mas ainda temos um longo caminho pela frente se comparados a países de outros continentes que estão um pouco mais a nossa frente nessas questões. É um setor de grande valor para o Brasil, que faz a nossa economia girar muito bem, principalmente considerando que somos um país rico em florestas e matérias-primas para a confecção das embalagens. Mesmo assim penso que deveríamos focar mais ainda no setor de reciclagem para conservar ainda mais o meio ambiente.
EMBANEWS: É possível ser inovador sem aumentar o custo da embalagem e sem perder qualidade?
PAULO PEREIRA: Com certeza sim, é possível, pois ultimamente temos visto muitos casos de embalagens inovadoras com um menor consumo de material, com maior facilidade de manuseio, utilização de materiais mais sustentáveis e com a mesma qualidade da embalagem originalmente desenvolvida. O que temos que fazer é pensar fora da caixa, sair do lugar comum e buscar soluções alternativas que nos permitam ter uma embalagem melhor com o mesmo custo e às vezes até com custo ainda menor. Cito como exemplo as garrafas PET com menor peso e as tampas com altura mais baixa e também os cartões com menor gramatura e boa resistência. Para isso temos como aliados os fabricantes das matérias-primas que estão constantemente pesquisando materiais com maior resistência, menor peso e/ou capazes de proporcionar maior proteção ao produto, por exemplo.
EMBANEWS: Fale do seu conceito dos 3 “Bs” (Bom, Bonito e Barato)?
PAULO PEREIRA: Antigamente, nas conversas e reuniões que eu tinha com meus clientes, e eles sempre me pediam algo BBB, ou seja, bom, bonito e barato, eu dizia que dos 3 Bs eles poderiam escolher apenas dois. A embalagem poderia ser boa e bonita, boa e barata ou bonita e barata. Porém, com as novas tecnologias que vêm surgindo, penso que atualmente é possível ter uma embalagem BBB, se todas as tecnologias disponíveis forem aplicadas corretamente durante o desenvolvimento. Porém tenho que fazer uma ressalva, pois o conceito de bom, de bonito e de barato está diretamente relacionando a cada tipo de produto, principalmente quando comparamos produtos de baixo valor agregado com produtos de alto valor agregado. Por exemplo, no caso de detergentes e shampoos, a embalagem pode ser boa, pode ser bonita, mas tem que ser barata, pois o produto tem que ter um bom preço para o consumidor. No caso de perfumes, que são normalmente itens de preço alto, a embalagem pode custar um pouco mais, pois se passar a impressão de ser um item barato, pode eventualmente tirar valor que o produto quer passar para o consumidor.
EMBANEWS: O que é embalagem para você?
PAULO PEREIRA: Embalagem para mim é o próprio produto, ou seja, faz parte do produto. Gostaria de começar exemplificando com algumas frutas que têm uma embalagem natural, como por exemplo uma laranja, uma banana, maçã, noz, castanha, pinhão e muitas outras. Já imaginou se elas não tivessem cascas, que são suas embalagens naturais e as protegem, como as compraríamos? Outro exemplo são as farinhas e grãos, como os compraríamos se não tivessem algum tipo de embalagem? Mesmo que sejam vendidos a granel esses produtos precisam de embalagem para serem transportados. Voltando ao início, para mim, a embalagem faz parte do produto, cada produto tem que ter uma embalagem adequada ao seu propósito de venda que atenda e encante seus consumidores, mas que também atenda os aspectos de proteção, marketing, custo e sustentabilidade, incluindo a inovação, para que o produto possa se diferenciar dos concorrentes do mercado e ser o líder, que é o desejo de toda empresa, penso eu.
EMBANEWS: Conte-nos sobre os seus 40 anos de carreira que está completando agora em 2024.
PAULO PEREIRA: Realmente completei 40 anos de carreira, grande parte da vida dedicada à embalagem, setor em que entrei, gostei, fiquei e estou até hoje desenvolvendo, criando novas embalagens, mas também focando em redução de custos e sustentabilidade. Iniciei minha carreira na J&J em 1982 no desenvolvimento de produtos profissionais, mas logo após dois anos, migrei para o departamento de desenvolvimento de produtos pessoais, como os de higiene oral, curativos adesivos, desenvolvendo também embalagens para a Linha OTC da J&J e a linha de Lentes Intraoculares, passando um tempo também pela Linha de Fraldas Descartáveis, até completar 26 anos de empresa, onde trabalhei por muitos anos no Centro de Pesquisa do Brasil, e estive diversas vezes presente no Centro de Pesquisa da Matriz, em New Jersey, nos Estados Unidos. Nesse período tive a oportunidade de desenvolver projetos locais, regionais e globais, aplicar diversas patentes no INPI e participar do Conselho da ABRE. Em 2008 recebi uma proposta da Agência Prodesign para me associar a eles e desenvolver o departamento Comercial e de Gerenciamento de Projetos de Embalagem, no qual pude gerenciar projetos, desenvolver novos clientes, contratar profissionais e treiná-los na coordenação de projetos em nossos clientes, o que foi uma experiência muito interessante. A maioria desses profissionais hoje está atuando no mercado como profissional de embalagem, como analistas, coordenadores e gerentes de embalagem em grandes empresas. Nesse meio tempo, em 2013 fui eleito Profissional de Embalagem do Ano pela ABRE, uma grata surpresa, pois não esperava. Em 2016, por diversas mudanças internas que ocorreram na agência em função da crise do mercado, o que acabou resultando na queda dos nossos negócios, e incentivado pelo nosso grande mestre e guru Lincoln Seragini, decidi abrir a minha própria consultoria. Foi batizada Pack in Motion, nome criado por mim com a grata satisfação de ter sua logomarca desenhada pelo próprio Seragini, como presente para iniciar a nova fase. Em 2017 fui convidado pelo nosso mestre Antonio Cabral para ministrar aulas na Pós-Graduação em Embalagem do Instituto Mauá de Tecnologia, onde continuo até hoje. Por grande coincidência, a conversa com o Lincoln foi justamente na entrega do Prêmios EMBANEWS 2016, e logo após, abri a empresa, iniciei meus trabalho e continuo até o momento prestando consultoria para clientes pequenos, médios e grandes, nacionais e multinacionais.
Atualmente, além da Pack in Motion, atuo também no desenvolvimento de novos negócios para as empresas Master Pumps e Plastek.
Por fim, quero aproveitar o espaço para agradecer. Não vou citar nomes aqui para não me esquecer de ninguém, mas sou grato a muitos amigos, colegas, clientes e fornecedores que me incentivaram e me ajudaram no início e me apoiam até hoje para continuar usando e dividindo os conhecimentos adquiridos e a experiência destes anos. Recebam aqui a minha eterna gratidão. Para conhecer mais sobre o meu trabalho, acesse meu site https://packinmotion.com.br/ ou o meu perfil no LinkedIn – https://br.linkedin.com/in/pauloepereira.
Aproveito também a oportunidade para deixar aqui o meu especial agradecimento ao Ricardo Hiraishi e a EMBANEWS pela oportunidade de contar um pouco da minha história.
Diretor e Editor Chefe da publicação EMBANEWS.