TECNOLOGIA AVANÇA COM A CONSTRUÇÃO DE PLANTAS PILOTOS E PLANTAS EM ESCALA E BUSCA CLAREZA NO CAMPO REGULATÓRIO
A reciclagem química, que transforma o plástico à sua composição inicial por meio da mudança química, esteve entre os temas abordados durante o Seminário Abiquim de Tecnologia e Inovação 2023, realizado em outubro, em São Paulo, que discutiu as tendências em inovações tecnológicas para o desenvolvimento sustentável da indústria química, em especial a química dos renováveis.
Segundo André Passos Cordeiro, presidente-executivo da Abiquim, duas das missões da entidade para um horizonte a longo prazo são o uso de bioprodutos e de energias renováveis. “Utilizar insumos renováveis nos processos produtivos, substituindo matérias-primas e energia, ambas de origem fóssil, é um caminho inevitável no mundo e, ao mesmo tempo, uma vantagem competitiva do Brasil, em especial da indústria química brasileira.
Sobre o tema da reciclagem química, José Carlos Pinto, professor de Engenharia Química da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia (COPPE) da Universidade do Rio de Janeiro (UFRJ) citou as várias rotas de reciclagem química estudadas no Laboratório de Engenharia de Polimerização (Engepol), que ele coordena. Entre elas as técnicas de termólise, consideradas como uma das vinte tecnologias mais importantes desta década, já que elas permitem a implementação real da circularidade. Segundo ele, a termólise é muito mais robusta na presença de impurezas do que outras técnicas. De partida, essa já é uma grande vantagem tecnológica e ambiental, já que não é preciso limpar o resíduo para reciclá-lo e reinseri-lo na cadeia química. Após submeter o resíduo a uma certa temperatura, ele se degrada resultando inicialmente em correntes de gases líquidos e, por fim em um resíduo sólido. O processo é extremamente flexível porque o número de variáveis e graus de liberdade é imenso. Tudo é aproveitado.
Recentemente a Engepol assinou um contrato com a Petrobrás para a construção de uma planta piloto de 1 tonelada por dia, com previsão para ser lançada em meados deste ano. Trata-se do projeto Orla Sem Lixo na UFRJ, que tem o objetivo de zerar os resíduos plásticos na Ilha do Fundão (RJ), cerca de 800 kg/dia, somando todo resíduo plástico gerado pela Universidade e empresas, incluindo o que se chega na praia da Ilha do Fundão. Uma das missões dessa planta é processar tudo isso de maneira a tornar a UFRJ net zero na produção de lixo plástico.
INVESTIMENTOS NA 1ª UNIDADE DE PIRÓLISE JÁ ESTÃO EM CURSO
As iniciativas da Braskem em torno da reciclagem avançada foram apresentadas por Luiz Falcon, Recycling I&T Plataform Leader da empresa.
A Braskem tem diversos projetos de pesquisas e linhas de pesquisa em desenvolvimento em que a matéria-prima circular passa a ser uma alternativa de matéria-prima, tornando a indústria química menos extrativista e mais circular no futuro próximo. Isso envolve o desenvolvimento de diversas plataformas de pesquisa convergentes à meta de atingir os objetivos de sustentabilidade da companhia. Falcon explica que a pirólise produz monômeros tão puros quanto os monômeros produzidos a partir de matéria-prima fóssil, ou seja, não há diferença entre eles. “Por meio desse processo, é possível ter uma resina virgem, contando ainda com uma quantidade de grades que se desejar, fazendo esse looping infinitamente; algo, sobretudo que a reciclagem mecânica não permite”. A Braskem agora vem buscando a questão regulatória, uma vez que há o entendimento de que o monômero produzido via reciclagem química atende às exigências legais e não apresentam risco algum para utilização em embalagens para contato com alimentos. Em parceria com a Valoren, a Braskem está construindo a primeira unidade de pirólise, para 3 mil toneladas/ano de óleo de pirólise em um investimento de R$ 44,4 milhões.
OS DESAFIOS PARA A RECICLAGEM AVANÇADA NA VISÃO DE BRAND OWNERS

Entre os brand owners, a Unilever já percorreu um bom caminho no uso do PCR em suas embalagens, como parte de suas metas de sustentabilidade para 2025.
Segundo a gerente de compras de resinas pós-consumo da Unilever Brasil, Agustina Sitler, em 2017, a Unilever iniciava a busca de parcerias para incorporar o PCR em suas embalagens, e chegou em 2022 nos 25% de PCR que era a meta para 2025. A empresa já está pensando em chegar nos 37% de inclusão até lá, e acredita que a reciclagem química pode ajudar neste processo.
Como exemplos do uso de PCR em suas embalagens, por reciclagem mecânica, ela destacou as embalagens dos ketchups Hellmann´s, produzidas 100% com PCR e que a partir dessa iniciativa, a empresa deixou de utilizar cerca de 500 toneladas de plástico virgem por ano. Como parte do portfólio, ela afirmou que todas as marcas de produtos para limpeza da casa, e muitos dos produtos de higiene pessoal, como xampus, condicionadores, cremes para pentear e cremes de tratamento fabricados pela Unilever utilizam resina reciclada em suas embalagens. Comfort, Seda, TRESemmé e Rexona são alguns deles.
Entre os aspectos da reciclagem química que Sitler acredita serem positivos, estão a possibilidade de maiores inclusões de PCR, como nos flexíveis; uso de food grade; e aumento na taxa de reciclagem. Mas há desafios, segundo ela, como a necessidade de clareza no campo regulatório; altos investimentos; soluções em escala para que o preço não seja tão excessivo; e parcerias em toda a cadeia para incentivar o uso de PCR. A executiva ressaltou que a reciclagem química é só uma parte da solução, apesar de ser fantástica, pois tecnicamente a resina resultante é como uma resina virgem. No entanto, a preferência deve ser sempre pela reciclagem mecânica, por sua baixa pegada de carbono. “Precisamos trabalhar para que os materiais sejam recicláveis. Quanto mais pudermos reciclar mecanicamente, melhor. A infraestrutura na coleta, também deve ser melhorada, pois sem resíduo não podemos aumentar a capacidade, assim como melhorar a separação e seleção para ter um produto mais nobre”, disse.
FINANCIAMENTOS VIA BNDES
A partir de uma revisão da estratégia do BNDES, a nova administração do banco definiu a reindustrialização como foco de atuação da instituição, estabelecendo que o desenvolvimento da indústria volte a ser prioritário na carteira do BNDES de forma a torná-la mais verde, inclusiva e digital. E para apoiar os projetos com foco em inovação e descarbonização, dois temas prioritários na atual agenda do BNDES, estão sendo estabelecidas quatro missões para promover a competitividade e o desenvolvimento em novas bases. São elas: Descarbonização da Indústria e apoio à Transição Climática; Transformação Digital da Estrutura Produtiva; Fortalecimento de cadeias estratégicas; e Bioeconomia e Materiais Estratégicos. Além das soluções financeiras já existentes para que essas missões aconteçam, haverá o Novo Fundo Clima que contará com um aporte de R$10 bilhões para 2024.
Saiba mais:
www.abiquim.org.br
Diretor e Editor Chefe da publicação EMBANEWS.