Graças a Nassim Nicholas Taleb, escritor, estatístico e analista de riscos, popularizou- -se, há algumas décadas, a teoria do “cisne negro”, que descreve eventos extremamente raros, difíceis de prever e com impacto extremo. Em geral, eles só são percebidos depois do fait acompli. A reboque desta teoria, Michele Wucker criou o conceito do “rinoceronte cinza”: uma ameaça altamente provável, previsível, de alto impacto, mas que costumeiramente não recebe a atenção que merece. O segmento de embalagens plásticas pode estar diante de uma manada destes rinocerontes, três dos quais identificados a seguir.
O primeiro deles atingirá a todo os setores da economia formal e vai causar profundas mudanças ao longo dos próximos anos. Em 2026, inicia-se o processo de reforma tributária. A cadeia das embalagens plásticas é longa: produtor de resina, fábrica de filmes ou produtos rígidos, convertedor de embalagem, fabricante do produto, distribuidor, varejista e, finalmente, o consumidor final. Além disso, regiões e etapas específicas podem ter incentivos ou subsídios que serão alterados gradualmente. As mudanças tributárias podem afetar a competitividade dos fluxos entre as unidades de fabricação e toda a malha logística. Será preciso um bom exercício de replanejamento e nova otimização. Quem sair na frente poderá ganhar uma vantagem importante. Mas a falta de diversas regulamentações da nova estrutura tributária brasileira está retardando esta iniciativa e a grande maioria dos sistemas de gestão (os ERPs) ainda não estão configurados. A boa notícia é que o novo sistema foi concebido para ser menos complexo, o que deveria reduzir os custos do gerenciamento tributário.
O segundo, e talvez o maior de todos os rinocerontes, é o decreto 12.688/2025, instituindo a logística reversa de embalagens plásticas, que preconiza índices crescentes de recuperação após o descarte pelo consumidor e a incorporação de conteúdo reciclado nas embalagens novas. Aqui, a definição de rinoceronte cabe bem: o tema vem sendo debatido há mais de 3 anos, com possibilidade de participação de todos os segmentos da cadeia e de suas representações associativas. É difícil dizer que o decreto foi uma surpresa. Por mais que haja complexidade em sua execução, haverá aqui uma mudança profunda na indústria de reciclagem. Com maior demanda, a produção de resinas recicladas mecanicamente será valorizada, aumentando o valor dos resíduos pós-consumo e viabilizando melhores processos de coleta seletiva, triagem, separação e lavagem para posterior reintrodução destes resíduos na economia. O potencial de transformação é imenso. Resinas com processo de reciclagem mais desenvolvido, como o PET, sairão em vantagem. A indústria tem uma nova oportunidade de se reinventar e mudar a percepção da sociedade de que a embalagem plástica é uma solução que causa um grande efeito colateral, a poluição, para ser uma solução campeã com seus problemas resolvidos. Mas se esta oportunidade não for aproveitada, é provável que os brand owners acabem optando por outros materiais como papel, alumínio e vidro para embalar os seus produtos, fugindo do risco de estarem associados ao plástico e da poluição dos oceanos.
Por fim, o terceiro rinoceronte talvez seja o mais discreto. Passada a fase do modismo, a digitalização é uma tendência e o uso da inteligência artificial na gestão da produção de embalagens plásticas pode mudar a competitividade das empresas do setor. O Brasil passa por um processo de aumento relativo do preço das resinas plásticas no mercado nacional devido a medidas como o aumento das alíquotas de importação e tarifas anti-dumping. Alguns transformadores plásticos começam a temer a entrada de produtos importados já transformados, como grandes bobinas de filmes para embalagens primárias e secundárias. O uso da tecnologia pode ajudar essas empresas a seguirem no jogo reduzindo custos e até incrementarem sua eficiência ao agregar uma qualidade de produto e serviço sem precedentes, criando uma vantagem competitiva crescente.
Assim, uma tributação mais moderna, uma regulação ambiental que resolva o principal entrave ao crescimento do uso do plástico nas embalagens e uma digitalização que traga eficiência e eficácia para o jogo irão transformar o setor de forma importante. O futuro será regulado, circular e conectado. A embalagem plástica poderá deixar de ser problema e voltar a ser parte da solução. Ganhará, como sempre, quem sair na frente e agarrar o rinoceronte pelo chifre.
Engenheiro, executivo, conselheiro e advisor. Trabalha na indústria da química e do plástico há mais de 30 anos e liderou diversas iniciativas de Economia Circular na última década

