20 de fevereiro de 2026

A partir do olhar como pesquisador, observo que as fontes de conteúdo sobre embalagem ao longo do tempo foram perdendo intensidade, acompanhando o movimento do mercado gráfico que aos poucos foi se modificando, a produção editorial perdeu espaço para a produção de embalagem. Os motivos para esta mudança foram impulsionados pela entrada de plataformas digitais, mas em paralelo o desinteresse das pessoas em ler.

Neste novo modelo de comunicação com o limite de 280 caracteres, enforcar as palavras virou um hábito e a ansiedade aumentou significativamente. Se este modelo fosse baseado em Carlos Drumond de Andrade, um mestre em sintetizar ideias profundas através de suas poesias, certamente teríamos uma maior valorização das palavras. No meio do caminho tinha uma pedra…

Textos com mais de uma página, como este artigo, já são difíceis de serem lidos até o fim, imaginem um livro de 500 páginas? Um escritor pode ser considerado um vitorioso quando consegue vender 1.000 unidades de sua obra. Se o conteúdo for superficial e prometer levar o individuo para uma ascensão rápida, talvez venda uma quantidade maior. Mesmo assim o design editorial tem que ser atrativo, as páginas com bom espaçamento, muitas figuras, entre linhas maiores e evitar ao máximo blocos pesados de texto.

Hoje temos mais um obstáculo para vencer a barreira da leitura contemplativa e interpretativa, a inteligência artificial. Uma pergunta bem elaborada pode salvar um emprego e encurtar caminhos, porém, elaborar uma boa pergunta requer uma bagagem de conhecimento adquirido através da leitura. Neste caso a inteligência individual deverá transcender a inteligência artificial.

Quando observamos a área de embalagem, percebe-se uma necessidade em atualizar conhecimentos básicos como as suas próprias funções. O mercado mudou e mudará na velocidade muito maior do que estamos acostumados. Em paralelo existe a necessidade latente de redução de impacto ambiental no planeta.

Além disso, as soluções exigem uma complexidade cada vez maior, a visão binária de design gráfico e estrutural está sendo acrescida de uma visão sistêmica que dê conta de soluções que observem todas as etapas do ciclo vida da embalagem e do produto, bem como os requisitos que embalagem deve cumprir ao longo da sua existência e atender as necessidades de todos os envolvidos no processo.

Torna-se necessário, além de uma atualização nos conteúdos relativos à embalagem, buscar alternativas para instigar os alunos e profissionais a se interessarem pela literatura sobre o setor, para isso precisaremos olhar para o passado e entender o que já foi feito, atender as demandas emergentes e pensar em cenários futuros.

Encorajo a repensarmos como podemos melhorar o entendimento sobre a área de embalagem no Brasil, integrando as tecnologias e os caminhos que a sociedade utiliza para se atualizar. Se nada mudar, estaremos expostos a um afastamento cada vez maior de pessoas interessadas pela área. Isto provocará um movimento de embalagens cada menos eficientes e sem um olhar crítico necessário para o seu desenvolvimento sistêmico.

Autor
Colunista Ricardo Sastre

Publicitário, Mestre em Design, Doutor em Engenharia de Produção e Pós-Doutor em Design Sustentável, Pesquisador, Consultor e Professor. Presidente da AP Design e Diretor da Mudrá Design.