Vivemos cercados por plásticos. Eles estão nas embalagens que usamos diariamente, nas roupas, nos carros, nos eletrodomésticos e até em dispositivos médicos. Essa versatilidade tornou o plástico um dos materiais mais importantes do século XX. No entanto, seu sucesso trouxe um problema crescente: a acumulação de resíduos plásticos no meio ambiente.
Estima-se que mais de 350 milhões de toneladas de plástico sejam produzidas anualmente no mundo, e uma parte significativa disso acaba em aterros ou, pior, nos oceanos. Como a maioria dos plásticos convencionais é derivada do petróleo e não se degrada facilmente, eles podem permanecer no ambiente por séculos, fragmentando-se em microplásticos que contaminam o solo, a água e os alimentos.
A reciclagem é, sem dúvida, uma das principais estratégias para mitigar os impactos ambientais dos plásticos. Ela reduz a necessidade de novas matérias- -primas e diminui o volume de resíduos descartados. Existem diferentes tipos de reciclagem — mecânica, química e energética — e cada uma tem seu papel.
Contudo, a reciclagem enfrenta desafios: muitos plásticos são misturados, contaminados ou possuem aditivos que dificultam sua recuperação. Além disso, nem todos os produtos plásticos são economicamente viáveis para reciclar. Assim, embora essencial, a reciclagem sozinha não resolve o problema global do plástico.
É nesse contexto que surgem os biopolímeros, materiais que buscam unir funcionalidade e sustentabilidade. De forma simples, os biopolímeros são plásticos produzidos a partir de fontes renováveis, como amido de milho, cana-de-açúcar, celulose, óleos vegetais e até resíduos agrícolas. Alguns deles também têm a capacidade de se degradar naturalmente após o uso, retornando ao ciclo da natureza sem causar poluição persistente.
Entre os exemplos mais conhecidos estão o PLA (ácido polilático): obtido a partir da fermentação do amido de milho ou da cana-de-açúcar. É utilizado em embalagens, copos descartáveis e até em impressoras 3D; O-PHA (polihidroxialcanoatos): produzido por micro-organismos que transformam açúcares e óleos em um polímero biodegradável. Pode ser usado em produtos médicos, cosméticos e filmes agrícolas; E também o PBS (succinato de polibutileno) e PBAT (tereftalato adipato de polibutileno): frequentemente usados em sacolas e embalagens flexíveis biodegradáveis.
A produção dos biopolímeros geralmente começa com matérias-primas vegetais, que passam por processos químicos ou biotecnológicos até se transformarem em plásticos. Por serem provenientes de recursos renováveis, contribuem para a redução das emissões de carbono, já que as plantas utilizadas absorvem CO2 durante o crescimento.
Após o uso, esses materiais podem seguir diferentes caminhos. Quando corretamente descartados, muitos biopolímeros biodegradáveis se decompõem em água, dióxido de carbono e biomassa sob condições controladas, como em sistemas de compostagem industrial. Isso evita o acúmulo de resíduos e fecha o ciclo de forma mais sustentável.
No entanto, é importante lembrar que nem todo plástico de fonte renovável é biodegradável, e nem todo biodegradável é de fonte renovável. O ideal é combinar ambas as características — origem sustentável e degradação controlada — junto de políticas eficazes de coleta e compostagem.
Os biopolímeros representam uma nova geração de materiais alinhados aos princípios do ESG (ambiental, social e governança) e da economia circular, que propõem reduzir o desperdício e manter os recursos em uso pelo maior tempo possível.
Mas sua adoção em larga escala ainda depende de avanços tecnológicos, redução de custos e conscientização dos consumidores. Substituir os plásticos convencionais por alternativas sustentáveis exige não apenas inovação, mas também mudança de comportamento — repensar o consumo, valorizar o descarte correto e apoiar políticas públicas voltadas à sustentabilidade.
Os plásticos transformaram o mundo; agora é hora de transformarmos a relação que temos com eles, e os biopolímeros, inspirados pela própria natureza, podem ser o elo entre a tecnologia e o meio ambiente — um caminho promissor para um planeta mais limpo e equilibrado.
* O conteúdo dos artigos assinados não representa necessariamente a opinião do Mackenzie.
Professor da Escola de Engenharia (EE) da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM)

