20 de fevereiro de 2026

O crescimento populacional gerou um aumento do consumo de produtos em diferentes regiões, durante todo o ano, impulsionando a indústria de embalagens. Segundo a Associação Brasileira de Embalagem (Abre), o valor bruto da produção física nacional alcançou R$ 165,9 bilhões em 2024, representando um aumento de 14,89% em relação ao ano anterior. Essa tendência traz desafios, especialmente na gestão de resíduos pós-consumo. Dados da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema) referentes a 2023 indicam que o Brasil gerou no ano cerca de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos, o equivalente a 382 kg por habitante. Nesse contexto, cresce a demanda por soluções inovadoras que conciliem desempenho técnico e responsabilidade ambiental.

As embalagens celulósicas, produzidas a partir de fibras vegetais, vêm se destacando como alternativas viáveis aos plásticos convencionais, movimento conhecido como paperization. Diversas indústrias, de diferentes portes e segmentos, têm investido nesse processo com o objetivo de atender às crescentes exigências por redução do impacto ambiental. Segundo dados da Abre, papelão ondulado, cartão e papel representaram cerca de 36,3% do valor bruto da produção de embalagens no Brasil em 2024. Contudo, inovar nesse segmento exige reavaliar todo o processo produtivo, novas tecnologias e estratégias de valorização de resíduos.

FIGURA 1: (A) Valor bruto da produção de embalagens no Brasil em 2024 (Abre, 2025) e (B) Geração de resíduos sólidos urbanos (RSU) no Brasil em 2023 (Abrema, 2024).
FIGURA 1: (A) Valor bruto da produção de embalagens no Brasil em 2024 (Abre, 2025) e (B) Geração de resíduos sólidos urbanos (RSU) no Brasil em 2023 (Abrema, 2024).

FONTES ALTERNATIVAS

Atualmente, a grande maioria da celulose usada em embalagens vem de florestas certificadas e cultivadas com manejo sustentável. A Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ) estima que 1,8 milhão de árvores são plantadas diariamente para fins comerciais, dando origem a produtos como celulose, papel, embalagens, painéis de madeira, pisos laminados etc. No entanto, há um crescente interesse em fontes alternativas de celulose com potencial para reduzir a pressão sobre florestas plantadas e, simultaneamente, dar destinação adequada a subprodutos agroindustriais.

Segundo Khorairi et al., são quatro grupos principais de fontes de celulose: convencionais ou primárias (principalmente madeira, amplamente usada na produção de papel), secundárias (resíduos não processados das indústrias alimentícia, agrícola ou florestal, como cascas, palhas e folhas), terciárias (subprodutos já processados, provenientes do uso ou conversão da biomassa celulósica, como polpas, bagaços e resíduos alimentares) e quaternárias (microrganismos produtores de celulose, como certas algas, fungos e bactérias).

Para otimização do processo de obtenção de celulose, vem sendo estudado o uso de fontes primárias de rápido crescimento, como o bambu, que, de acordo com Ahmad et al., apresenta ainda outras características interessantes, como alta resistência mecânica e sucessão ecológica simplificada.

Embora representem alternativas promissoras, as fibras celulósicas oriundas de fontes não florestais enfrentam desafios. A heterogeneidade do material, o reduzido comprimento das fibras após o processamento e a complexidade e variedade dos métodos de produção demandam aprimoramento para exploração comercial em maior escala.

FIGURA 2: Principais fontes de celulose (Khorairi et al., 2021)
FIGURA 2: Principais fontes de celulose (Khorairi et al., 2021)

REVESTIMENTOS

Embora apresentem vantagens, como leveza e boa resistência mecânica, as embalagens celulósicas possuem limitações naturais quanto às propriedades de barreira, devido à sua estrutura porosa e higroscópica, sendo comum em embalagens primárias para alimentos, por exemplo, a aplicação de revestimentos ou camadas adicionais, geralmente compostas por filmes plásticos sintéticos (polietileno, EVOH etc.) ou folhas de alumínio, combinação que compromete significativamente a reciclabilidade do material.

Afim de mudar esse cenário, alternativas mais sustentáveis de materiais para revestimentos estão sendo exploradas: biopolímeros como ácido polilático (PLA), polihidroxialcanoato (PHA), amido, quitosana, lignina etc. (Kunam et al., 2022); ceras naturais, de abelha, de soja, biowax etc. (Jahangiri et al. 2025); nanocelulose como celulose nanofibrilada (CNF), nanocristais de celulose (CNC) etc. (Spagnuolo et al., 2022).

Para isso, é fundamental considerar não apenas as propriedades de barreira oferecidas, como permeabilidade ao vapor d’água, oxigênio, gordura e luz, mas também os impactos nas propriedades físico-mecânicas do material. Alterações no peso, resistência à tração e ao arrebentamento, ângulo de contato e capacidade de absorção de água são aspectos que devem ser avaliados, assim como a estabilidade em condições de temperatura e umidade relativa elevadas, cenário facilmente encontrado na cadeia de distribuição de produtos. A aplicação desses revestimentos também deve ser escalonável e ter boa maquinabilidade em linhas de produção.

DESIGN

O design de embalagens contribui para proteção do produto e prevenção de perdas ao longo da cadeia logística, pois o descarte devido a falhas no acondicionamento gera impacto ambiental significativamente maior do que a própria embalagem. Por isso, seu desenvolvimento deve priorizar estruturas mais eficientes, formatos otimizados e uso racional de matéria- -prima, abrangendo os conceitos Packaging Logistics, que consiste em planejar, avaliar, testar e otimizar, e Design for Environment (DfE), que visa reduzir impactos ambientais ao longo do ciclo de vida (ISO, 2020).

Embora sejam procedentes de fonte renovável, embalagens celulósicas geram impacto ambiental quando descartadas, o que deve ser minimizado sempre que possível. Nesse contexto, são uma tendência crescente gramaturas cada vez menores que mantenham propriedades técnicas necessárias para o desempenho adequado.

Outro aspecto essencial é a comunicação clara e eficaz com o consumidor, que deve receber informações que o oriente durante toda a jornada do produto, desde a escolha na prateleira até o descarte adequado. Certificações ambientais, por exemplo, podem influenciar positivamente a decisão de compra.

imagem do instituto de tecnologia de alimentos e do governo do estado de são paulo

Referências

ABRE – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EMBALAGEM. Estudo Abre macroeconômico da embalagem e cadeia de consumo. 2025. Disponível em: https://www.abre.org.br/dados-do-setor/2024-2/. Acesso em: 14 jul. 2025.

ABREMA – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RESÍDUOS E MEIO AMBIENTE. Panorama dos resíduos sólidos no Brasil 2024. 2024. Disponível em: https://static.poder360.com.br/2024/12/panorama-dos-residuos-solidos-no-brasil-2024.pdf. Acesso em: 14 jul. 2025.

AHMAD, M. I., FAROOQ, S., ZHANG, H. Recent advances in the fabrication, health benefits, and food applications of bamboo cellulose. Food Hydrocolloids for Health, v. 2, dez. 2022. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2667025922000498. Acesso em: 18 jul. 2025.

IBÁ – INDÚSTRIA BRASILEIRA DE ÁRVORES. Relatório anual Ibá 2024. Disponível em: https://iba.org/datafiles/publicacoes/relatorios/relatorio2024.pdf. Acesso em: 15 jul. 2025.

INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 14006:2020 – Sistemas de gestão ambiental – Diretrizes para a incorporação do ecodesign. Ed. 2. Geneva: Iso, 2020.

JAHANGIRI, A. M. F. et al. Wax Coatings for Paper Packaging Applications: Study of the Coating Effect on Surface, Mechanical, and Barrier Properties. ACS Environmental Au, v. 5, n. 2, p. 165-182, ago. 2025. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/387138661_Wax_Coatings_for_Paper_Packaging_Applications_Study_of_the_Coating_Effect_on_Surface_Mechanical_and_Barrier_Properties. Acesso em: 17 jul. 2025.

KHORAIRI, A. N. S. A. et al. A Review on Agro-industrial Waste as Cellulose and Nanocellulose Source and Their Potentials in Food Applications. Food Reviews International, v. 39, n. 2, p. 663-688, mai. 2021. Disponível em: https://sci-hub.se/downloads/2021-08-31/58/ahmadkhorairi2021.pdf. Acesso em: 16 jul. 2025.

KUNAM, P. K. et al. Bio based materials for barrier coatings on paper packaging. Biomass Conversion and Biorefinery, ago. 2022. Disponível em: https://scispace.com/pdf/bio-based-materials-for-barrier-coatings-on-paper-packaging-13n5l6wa.pdf. Acesso em: 16 jul. 2025.

SPAGNUOLO, L., D’ORSI, R., OPERAMOLLA, A. Nanocellulose for Paper and Textile Coating: The Importance of Surface Chemistry. ChemPlusChem, v. 87, n. 8, 2022. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/362656723_Nanocellulose_for_Paper_and_Textile_Coating_The_Importance_of_Surface_Chemistry. Acesso em: 17 jul. 2025.

As figuras desse artigo foram elaboradas usando recursos de Flaticon.com

Autor
Colunista Abner Domingos

Pesquisador do Centro de Tecnologia de Embalagem (Cetea) do Ital/Apta/SAA.