20 de fevereiro de 2026

A geração de resíduos industriais representa um dos maiores desafios contemporâneos para a indústria e para a sociedade. Entre eles, a Areia Descartada de Fundição (ADF) se destaca pela expressiva quantidade produzida no Brasil, estimada em cerca de 3 milhões de toneladas por ano, e pela composição química de alto valor tecnológico, rica em sílica (SiO2).

Embora tradicionalmente destinada a aterros industriais, a ADF reúne características que a qualificam como matéria-prima alternativa para a formulação de vidros e vitrocerâmicos, oferecendo um caminho promissor para a inovação sustentável.

Pesquisas realizadas no Brasil comprovam essa viabilidade. Estudos conduzidos na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) demonstraram que misturas contendo até 75% de ADF em substituição à sílica virgem, submetidas à fusão a 1400 °C, resultaram em vidros de coloração verde translúcida.

Foto de amostra de Vidro com 100% de ADF em substituição à sílica, POLLI, 2014.

O subsequente tratamento térmico, entre 600 °C e 900 °C, induziu a formação de fases cristalinas de piroxênio, confirmando a adequação da aplicação (POLLI, 2014). Em paralelo, pesquisas de doutorado na Universidade Estadual Paulista (UNESP) validaram que a combinação de ADF com calcário pode gerar vitrocerâmicos com fase cristalina de wollastonita (Ca- SiO3), apresentando microdureza entre 6 e 8 GPa, valores comparáveis aos de revestimentos técnicos de alto desempenho (MAGALHÃES, 2023).

Do ponto de vista industrial, a adoção da ADF na indústria do vidro e de embalagens revela benefícios ambientais, econômicos e sociais significativos. A substituição da areia virgem reduz a pressão sobre jazidas minerais, preservando ecossistemas frágeis e diminuindo os impactos da extração.

Ao transformar um resíduo de difícil destinação em um ativo produtivo, promove-se a economia circular, com reflexos positivos no meio ambiente e na competitividade industrial. Além disso, o aproveitamento da ADF reduz custos de matéria-prima e disposição em aterros, ao mesmo tempo em que diminui as emissões atmosféricas associadas à extração e ao transporte de areia virgem, criando condições para a geração de créditos de carbono.

O mercado brasileiro de vidro e embalagens consome milhões de toneladas de sílica por ano. A incorporação da ADF a essa cadeia produtiva não apenas contribui para a redução de passivos ambientais, mas também posiciona o setor como protagonista em inovação sustentável e em conformidade com práticas de ESG, cada vez mais valorizadas por consumidores, investidores e reguladores. Trata-se de uma oportunidade estratégica que alia viabilidade técnica, ganhos econômicos e responsabilidade socioambiental, colocando o Brasil na vanguarda da valorização de resíduos industriais em escala global.

Referências

  • MAGALHÃES, R. S. Síntese e caracterização de vitrocerâmicos obtidos a partir da areia descartada de fundição (ADF). Tese (Doutorado em Ciência e Engenharia de Materiais) – Universidade Estadual Paulista (UNESP), Bauru, 2023.
  • POLLI, H. Utilização da areia descartada de fundição (ADF) em formulações de vidros e vitrocerâmicos. Dissertação (Mestrado em Ciência e Engenharia de Materiais) – Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Joinville, 2014.

Autor
Colunista Raquel Luísa Pereira Carnin

Pesquisadora colaboradora da (UNICAMP/FT); Pós-doutoranda em Gestão
do Conhecimento na (UFSC/EGC); Sócia-diretora da Nova Era Soluções Ambientais