20 de fevereiro de 2026
Foto do entrevistado Leandro Andrade

“A embalagem, para mim, sempre foi muito mais do que um componente do produto é uma ponte entre tecnologia, marca e experiência do consumidor”.

Com pouco mais de 25 anos de experiência no desenvolvimento de soluções para os segmentos de cosméticos, perfumaria, higiene e alimentos, com atuação em empresas como Natura, Reckitt, Hypera, JBS e, atualmente, no Grupo Boticário, onde lidera projetos estratégicos de desenvolvimento em perfumaria, Leandro Andrade, é Engenheiro Sênior de Embalagens, Bacharel em Química e licenciado para atuação como professor de Química, Física e Matemática, com especialização em Engenharia de Embalagens pelo Instituto Mauá de Tecnologia.

Essa base multidisciplinar foi fundamental para a sua construção de uma visão técnica sólida, integrada a estratégia de negócio, a inovação e a viabilidade industrial das empresas pelas quais atuou.

Ao longo da carreira, participou de projetos relevantes, premiações do setor e experiências internacionais, o que ampliou sua percepção sobre o papel estratégico da embalagem dentro das organizações. Hoje, além de sua atuação técnica, também contribui para o desenvolvimento de profissionais da área por meio de mentoria, palestras e cursos, e acredita fortemente na valorização da profissão de desenvolvedor de embalagens como uma ferramenta poderosa para a inovação.

Nesta entrevista à EMBANEWS, Leandro compartilha aprendizados de sua trajetória, sua visão sobre o futuro da engenharia de embalagens e os desafios estratégicos que moldam o desenvolvimento no segmento de cosméticos e perfumaria.

EMBANEWS: Como a engenharia de embalagens equilibra estética, funcionalidade e sustentabilidade nos projetos de novos produtos?

LEANDRO ANDRADE: A engenharia de embalagens é, essencialmente, a arte de equilibrar variáveis que muitas vezes parecem conflitantes. A estética é responsável por gerar desejo e conexão emocional com o consumidor, a funcionalidade garante performance, proteção e experiência de uso, e a sustentabilidade traz o compromisso com o futuro e com a responsabilidade socioambiental.

O equilíbrio acontece quando o profissional consegue integrar essas dimensões desde o início do projeto, e não tratar sustentabilidade como uma etapa posterior ou estética como um elemento isolado do design. Hoje, decisões de material, processo produtivo, logística e experiência do consumidor precisam ser pensadas de forma sistêmica.

EMBANEWS: Quais tendências globais em design e tecnologia de embalagens você acredita que terão maior impacto no setor de cosméticos nos próximos anos?

LEANDRO ANDRADE: Vejo três grandes movimentos principais.

O primeiro movimento é a evolução do próprio conceito de premium. O luxo tradicional, muitas vezes associado ao peso, ao excesso de material e à ornamentação, vem sendo reinterpretado. Hoje, o desafio não é simplesmente reduzir elementos, mas trazer sofisticação com inteligência, priorizando escolhas de materiais mais sustentáveis, eficiência estrutural e coerência com o posicionamento da marca.

Quando existe a necessidade de combinar materiais distintos para atender requisitos estéticos ou funcionais, cresce também a responsabilidade de pensar no ciclo completo da embalagem, principalmente o que será feito com ela após o seu uso principal.

Na minha visão, o premium do futuro não estará apenas na aparência, mas na capacidade de integrar experiência, tecnologia e sustentabilidade de forma equilibrada e consciente.

O segundo movimento é a evolução tecnológica dos materiais e processos. Avanços em decoração, novas resinas, soluções refiláveis e componentes de alta performance estão permitindo entregar experiências cada vez mais sofisticadas com menor impacto ambiental, ampliando as possibilidades de inovação sem perder eficiência industrial.

Ao mesmo tempo, vejo a embalagem como uma ferramenta poderosa de inclusão. Mais do que proteger e comunicar um produto, ela precisa ser acessível e compreensível para diferentes perfis de consumidores. Isso significa desenvolver soluções que considerem limitações físicas, cognitivas ou sensoriais, promovendo autonomia, segurança e facilidade de uso.

O terceiro movimento é a integração entre embalagem e experiência digital. Tecnologias como QR codes, NFC, RFID, realidade aumentada e sistemas de rastreabilidade tendem a crescer, transformando a embalagem em um ponto de relacionamento contínuo entre marca e consumidor. Essa conexão amplia possibilidades de autenticidade, combate à falsificação, acesso a informações, personalização de experiências e engajamento ao longo de todo o ciclo de vida do produto.

Nesse contexto, a inteligência artificial também passa a ocupar um papel importante, seja no apoio ao desenvolvimento, na análise de dados, na otimização de projetos ou na criação de experiências digitais integradas à embalagem. No entanto, acredito que é fundamental termos clareza sobre o papel dessa tecnologia. A IA deve ser uma ferramenta de suporte, que potencializa a capacidade de análise e criatividade, mas não substitui o pensamento crítico, a responsabilidade técnica e o protagonismo do profissional de desenvolvimento.

A inovação mais consistente continuará nascendo da combinação entre conhecimento humano, experiência prática e uso inteligente das novas tecnologias.

EMBANEWS: Você demonstra reconhecer muito a sua relação com seus fornecedores, isso aumenta o engajamento deles?

LEANDRO ANDRADE: Sem dúvida. A relação com fornecedores é um dos pilares do sucesso em projetos de embalagem.

Eu acredito muito em parceria genuína, baseada em transparência, respeito técnico e construção conjunta de soluções. Quando o fornecedor percebe que existe confiança, reconhecimento e abertura para inovação, o nível de engajamento muda completamente.

Fornecedores não são apenas executores são fontes de conhecimento, tecnologia e evolução. Muitas das melhores soluções surgem quando existe colaboração verdadeira entre cliente e parceiro.

EMBANEWS: O profissional de embalagem é valorizado no Brasil?

LEANDRO ANDRADE: O Setor de embalagens no Brasil é extremamente competente e reconhecido internacionalmente, mas no meu entendimento, ainda existe espaço para evoluir na valorização individual dos profissionais.

É muito comum celebramos a embalagem final, as marcas ou as empresas, mas pouco se fala sobre as pessoas que estão por trás das decisões técnicas, dos desafios industriais e das soluções inovadoras.

Ressalto que nos últimos anos percebo uma evolução positiva neste aspecto, com maior visibilidade da área dentro das organizações, principalmente porque a embalagem deixou de ser apenas um item operacional e passou a ocupar um papel estratégico em inovação, sustentabilidade e experiência do consumidor. Torço para que essa evolução ganhe cada vez mais força para de fato mostrar o valor do profissional de embalagem dentro do negócio.

EMBANEWS: Como é completar 25 anos de atuação profissional e o que esperar dos próximos anos?

LEANDRO ANDRADE: Completar 25 anos de carreira é, acima de tudo, um momento de gratidão. Gratidão pelas oportunidades, pelas pessoas que fizeram parte da minha jornada “que não foram poucas”, mas gostaria de aproveitar o espaço para deixar o meu agradecimento a pessoas pontuais que carrego na memória como pessoas que abriram esse caminho maravilhoso para mim, são elas: Marie Iwasaki, Alberto Alves, Márcio Miranda, Anderson Brito, André Olegário, Vitor Nascimento, Renato Wakimoto, Rafael Muller, José Peredo, Gustavo Dieamant, Fabiana Laranjeira e Luiz Watanabe e por todos os desafios que me permitiram evoluir até aqui.

Ao mesmo tempo, sinto que ainda estou em um ciclo de construção. A experiência acumulada traz maturidade técnica e visão estratégica, mas também aumenta a responsabilidade de contribuir com o desenvolvimento de novas gerações de profissionais.

Para os próximos anos, espero continuar evoluindo em posições de liderança, ampliar minha contribuição para o setor e, no futuro, compartilhar ainda mais conhecimento por meio de mentoria, palestras e consultorias. Também desejo estar cada vez mais próximo dos meus mentores pessoas que, ao longo da minha trajetória, foram referências profissionais e humanas, e que contribuíram de forma significativa para que eu me tornasse o profissional que sou hoje.

Acredito muito na importância das conexões, da troca de experiências e do aprendizado contínuo. Reconhecer quem nos inspira e manter essa proximidade é uma forma de continuar evoluindo, com humildade e consciência de que nenhuma trajetória é construída sozinha.