Sempre me intrigaram as discussões estéreis sobre temas ligados ao Sistema Embalagem protagonizadas por diversos stakeholders: fabricantes e usuários de materiais de embalagem, ambientalistas que demonizam as embalagens2, políticos, professores de diversas instituições de ensino, Organizações Não Governamentais, agentes públicos entre outros.
Muitas dessas discussões se assemelham a disputas infantis — “eu sou melhor em matemática!”, “mas você nem sabe escrever!” — quando, na verdade, juntos poderiam compor excelentes textos com sólida lógica e fundamento.
O ponto essencial, porém, quase sempre negligenciado, é a educação, em todas as suas dimensões: profissional, ambiental, política, financeira. Ela deveria estar fortalecida em todos os níveis do ensino brasileiro, da pré- -escola (para fortalecer a adequada formação dos futuros cidadãos) até a pós-graduação. É imperioso investir recursos humanos e financeiros nesse sentido, destinando para ele, por exemplo, uma pequena parte da importante arrecadação obtida pelas loterias e casas de apostas.
Quando se fala em impactos ambientais, o debate tende a ficar obscurecido por imagens alarmantes de poluição, especialmente por plásticos (recomendo a leitura reflexiva do livro “Paradoxo dos Plásticos – fatos para um futuro melhor”3). Raramente se menciona o verdadeiro responsável: o ser humano. Isso reforça o que costumo dizer: a embalagem é sempre considerada a culpada pelos problemas e pelas desavenças que ocorrem nas cadeias produtivas.
Cabem aqui algumas perguntas: a quem interessa essas discussões ineficazes nem sempre conduzidas por pessoas conhecedoras do tema? Quem ganha o quê com isso? Há algum poder em jogo? Penso que existe um ser invisível e manipulador, que conduz, subliminarmente, os trâmites desses desacordos que podem chegar a hostilidades inaceitáveis. Permito-me chamá-lo de Discórdia, uma quase imperadora, seguidora fiel dos ensinamentos de Maquiavel, especialmente o trecho que se segue, retirado do Capítulo XX de “O Príncipe”4:
Os nossos antepassados […]mantinham as discórdias entre os partidos para dominá-las mais facilmente.
Concluo que o poder da Discórdia age para manter a divisão do povo (leia-se os diversos materiais) para (por que não?) perpetuar-se no poder (qual poder?). É preciso trabalhar contra isso e, para tanto, sugiro criar uma estratégia brasileira de embalagem que seja rapidamente regulamentada, aceita e implantada para evitar que o sempre imenso intervalo de tempo entre a aprovação e a real “posta em marcha” de qualquer plano se transforme em outra arma da Discórdia (sempre ela, uma verdadeira imperatriz). Como exemplo dessa demora, a Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS foi instituída pela Lei 12.305/2010 e o Plano Nacional de Resíduos Sólidos — PLANARES foi publicado doze anos depois, em 29 de dezembro de 2022, pela Portaria nº 1.090/2022, do Ministério do Meio Ambiente (MMA).
O que seria esse Plano? Como começar? Busquei apoio em uma nova ferramenta — o ChatGPT — com quem dialoguei intensamente buscando exemplos internacionais (que são poucos) até estruturar um roteiro para um Plano Estratégico Nacional de Embalagem, que disponibilizo5 aos eventuais interessados. Ele foi elaborado com a visão sistêmica que guia o meu pensamento quando o assunto é embalagem.
Esse Plano:
- Representa pacto de não agressão entre os materiais, promove a cooperação e o não confronto.
- Propõe a inserção da educação sobre embalagens desde os primeiros anos escolares, conscientizando sobre seu papel essencial na preservação de alimentos e da vida.
- Rejeita o princípio maquiavélico de divisão como instrumento de controle.
- Prevê a liderança de um comitê gestor plural, com foco em inovação, agilidade e superação de rivalidades setoriais.
Acredito ser viável, em médio prazo, implementar um plano inclusivo, inovador e competitivo, que equilibre preservação ambiental, desenvolvimento econômico e justiça social.
Espero estimular reflexões e fomentar um movimento colaborativo em torno dessa ideia. Conto com o engajamento de todos que acreditam que o caminho do futuro passa, sim, pelas embalagens — mas sobretudo pelo consenso, pela ação e pela inteligência coletiva.
- Diretor da Pack&Strat – Engenharia e Estratégia de Embalagem, Ltda – www.packstrat.com.br
- CABRAL, A. Sem embalagem, talvez só belzebu coma. Embanews, agosto 2017, pág. 50
- DeARMITT, C. O Paradoxo dos Plásticos – fatos para um futuro melhor. Versão digital disponível em https: //tampinhalegal. com.br/web/2023/05/28/o-paradoxo-dos-plasticos/ último acesso em 31 de julho de 2025
- MACHIAVELLI, N. O Príncipe / traduzido do italiano por Maurício Santana Dias ; prefácio de Fernando Henrique Cardoso; tradução dos apêndices por Luiz A. de Araújo. – São Paulo: Penguin Classics – Companhia das Letras, 2010.
- CABRAL, A. Plano Estratégico Nacional de Embalagem. Disponível em https://packstrat.com.br/category/artigos/
Coordenador dos Cursos de Pós-Graduação em Engenharia de Embalagem do Centro Universitário do Instituto Mauá de Tecnologia (CEU/IMT).

